A Arte de Recomeçar | 8/10 Quando a vida não acontece no nosso tempo

Eu gostaria de dizer que aprendi a ter paciência, mas a verdade é que ainda estou aprendendo e algumas vezes, perco a paciência comigo, com as pessoas, com o tempo das coisas, com aquilo que eu queria que já tivesse acontecido. Quero respostas antes da hora, resultados antes do processo, encerramentos quando ainda existem coisas para compreender.

E, quando percebo, escorreguei novamente na famosa casca de banana.

Respiro.
De novo.
E recomeço.

Talvez essa seja uma das partes mais honesta e realista de A Arte de Recomeçar: o recomeço não acontece uma única vez. Ele acontece no meio do dia. Depois de uma reação impulsiva, de uma decepção ou frustração, de uma noite mal dormida,  de uma perda, depois de perceber que aquilo que imaginávamos para a nossa vida não aconteceu como planejado.

A vida não pergunta se estamos prontos. Ela simplesmente amanhece. E, com cada novo amanhecer, oferece outra oportunidade de escolher como queremos estar diante dela.

Inspire.
Pause.
Expire.

Tente novamente.

A respiração sabe antes de nós

Existe uma professora que me acompanha desde o primeiro instante da minha vida e que, provavelmente, estará comigo até o último: a minha respiração. Quanto mais observo, mais extraordinária ela me parece. Eu inspiro. Recebo o ar. Por alguns segundos, retenho. E então preciso deixá-lo partir.Não posso guardar uma inspiração para sempre. O ar chega, cumpre sua função e vai embora para que um novo ciclo possa começar.

Talvez exista aí uma das maiores lições sobre a vida: saber receber sem tentar possuir e saber soltar sem tentar controlar.

Quantas vezes fazemos exatamente o contrário? Tentamos segurar pessoas, relacionamentos, empregos, planos, fases da vida, certezas, versões de nós mesmas. Queremos que aquilo que está começando nunca termine. E, quando termina, queremos voltar, mas a respiração não faz isso, ela não tenta segurar o que já cumpriu seu ciclo, ela simplesmente continua.

Talvez seja por isso que, quando a vida nos tira alguma coisa que amávamos, a dor seja tão grande. Não estamos apenas perdendo algo. Estamos aprendendo a respirar de outro jeito.

Quando a vida muda os planos

Há momentos em que o recomeço não é uma escolha que fazemos, mas uma escolha que a vida nos obriga a considerar. Um relacionamento termina. Um trabalho acaba. Um projeto não acontece.Uma pessoa vai embora. Uma porta que parecia certa se fecha.

E, por alguns instantes, talvez não exista nenhuma beleza aparente nisso. Existe apenas a pergunta: “E agora?”

Eu não acredito que precisamos romantizar a dor. Há perdas que doem, despedidas que não queríamos viver,  sonhos que mereciam ter acontecido e não aconteceram, mas também aprendi que existe uma diferença entre sentir a dor e construir uma casa dentro dela.

A dor pode nos visitar, “é inevitável”, já dizia o poeta, mas não precisa se tornar nossa identidade. Às vezes, o que parece ser o fim de uma história é apenas o fim do que imaginávamos, e existe uma “outra” vida do outro lado daquilo que ainda não conseguimos enxergar porque não sabemos como será, apenas que ela existe.

Paciência não é esperar parado

Talvez uma das coisas mais difíceis da vida seja aceitar que nem tudo acontece quando achamos que estamos prontos para que aconteça. Durante muito tempo, pensei que ter paciência era simplesmente esperar. Hoje, penso diferente.

Paciência é continuar vivendo enquanto a vida ainda não respondeu!!

É fazer a nossa parte, repetir o que queremos fortalecer e, ao mesmo tempo, aceitar que algumas coisas não podem ser aceleradas.

Pesquisas sobre formação de hábitos mostram que a repetição consistente ajuda novos comportamentos a se tornarem mais automáticos, mas cada pessoa tem seu próprio tempo. E um deslize não significa que todo o processo foi perdido. Gosto dessa ideia porque ela me traz paz.

Paz não é fazer a vida obedecer ao nosso ritmo. É não permitir que a pressa da vida roube o nosso centro!

Talvez aceitar seja isso: parar de lutar contra aquilo que não podemos mudar. Desapegar não significa deixar de amar. Significa deixar de tentar controlar. E gosto de pensar na paz como um mantra:

A paz pode invadir a guerra, mas a guerra não invade a paz!!

Posso estar atravessando uma fase difícil sem transformar a dificuldade na minha identidade, esperar sem ficar parada e errar sem voltar ao zero.

Estou aprendendo, praticando e em constante processo.

E talvez essa seja uma das formas mais profundas de paciência: continuar escolhendo a paz enquanto a vida no seu próprio tempo, continua acontecendo.

O músculo que ninguém vê

Existe algo que aprendi observando o corpo. Você pode frequentar uma academia, treinar, descansar, voltar, repetir… e, durante algum tempo, olhar no espelho e pensar: “mas quando vou começar a perceber a mudança?”

Enquanto isso, alguma coisa já está acontecendo.O corpo está se adaptando.O músculo está sendo construído.A transformação começou antes de se tornar visível.Talvez conosco seja igual.Queremos ser mais pacientes, menos reativos, mais gentis, mais disciplinados.

Queremos deixar um padrão para trás e construir outro, mas esperamos perceber a transformação imediatamente, mas a verdade é que não funciona assim.

Você não constrói um músculo em um único treino.
E não constrói uma nova versão de si mesma em uma única decisão.

Construímos pela repetição. Uma escolha. Depois outra.E outra.Até que aquilo que um dia exigia esforço começa, pouco a pouco, a fazer parte de nós.

O dia em que eu escorrego

Eu não quero romantizar essa parte: ainda perco a paciência, respondo quando poderia respirar, me irrito e ainda quero que algumas coisas aconteçam no meu tempo. E, muitas vezes, reconheço o padrão somente depois que já entrei nele. A famosa casca de banana continua aparecendo pelo caminho.A diferença talvez esteja no que faço depois da queda. Hoje, tento não transformar um escorregão em identidade.

Eu errei, mas eu não sou o meu erro.

Respiro.

Observo.

Assumo.

Aprendo.

E começo novamente.

Talvez o verdadeiro pulo do gato esteja justamente aí: em aprender. Existe humildade em reconhecer o erro e aprender com ele. E existe força em não desistir de nós mesmos por causa do  tropeço.

Recomeçar não é começar do zero

Talvez essa seja uma das conexões mais bonitas entre todos os capítulos desta série. A natureza me ensinou a alquimia de que cada estação prepara a próxima. A morte me ensinou a viver melhor enquanto ainda existe tempo para vivê-la. A coragem de ser quem sou me ensinou a deixar algumas versões de mim para trás. E agora, a paciência me ensina que a transformação não acontece de uma vez.

Nós nos construímos.

Nos desconstruímos.

Nos reconstruímos.

E, algumas vezes, precisamos reconstruir novamente.

Mas nunca voltamos ao ponto de partida.

Voltamos com experiência, consciência, cicatrizes, novas escolhas e com  uma compreensão que antes não tínhamos.

A natureza não tem pressa

A natureza continua sendo uma das minhas maiores professoras: uma árvore não cresce porque alguém gritou com ela, uma montanha não aparece em um dia e uma estação não muda porque estamos impacientes. Tudo acontece no seu próprio ritmo.

Vivemos cercados pela urgência e queremos respostas rápidas, resultados imediatos, transformações instantâneas. Mas quase tudo aquilo que realmente importa exige tempo: relacionamentos, confiança, conhecimento, caráter, força, sabedoria.

E talvez algumas das melhores coisas da vida estejam justamente sendo construídas enquanto pensamos que nada está acontecendo.

E se aquilo que hoje parece silêncio for, na verdade, um processo que você ainda não consegue enxergar?

Talvez seja aqui que a fé se torna necessária: não como a certeza de que tudo acontecerá exatamente como desejamos, mas como a confiança de que existe uma inteligência maior operando também no invisível aos nossos olhos.

A espiritualidade pode nos ajudar a permanecer nesse intervalo, entre o que terminou e o que ainda não começou, entre a pergunta e a resposta, entre a noite e o amanhecer. Na pausa.

A vida tem sua própria polaridade: dias de luta, dias de glória; perdas e encontros; silêncio e movimento. Uma coisa não anula a outra. Talvez a unicidade esteja justamente aí: compreender que tudo faz parte de um mesmo movimento.

Enquanto esperamos que a vida aconteça do lado de fora, talvez os maiores recomeços estejam acontecendo nos bastidores, dentro de nós!!!

E se hoje você não consegue enxergar o caminho, talvez não precise enxergá-lo inteiro. Talvez precise apenas confiar no próximo passo.

Respirar! Aceitar! Soltar! Continuar!

Porque nem tudo o que está sendo construído pode ser visto.

Algumas das transformações mais importantes da nossa vida começam no invisível, onde a fé encontra a coragem de continuar sabendo que o melhor sempre acontece.

Com carinho,

Adriana Jarva