Deixar para trás quem fomos. Descobrir quem somos. Ter coragem para nos tornarmos quem ainda podemos ser.
Há dez anos, desembarquei nos Estados Unidos acreditando que estava apenas mudando de país. Hoje sei que a maior travessia não aconteceu no mapa, mas aconteceu dentro de mim. Esta não é uma história sobre imigração, é uma história sobre identidade, sobre medo e coragem, sobre reinvenção, sobre as versões de mim que precisei despedir para permitir o nascimento de outras, porque, às vezes, recomeçar não exige mudar de endereço. Exige mudar de consciência.
A profissão que me ensinou a observar
Durante 23 anos, trabalhei com comunicação. Formei-me em Jornalismo, fiz MBA em Marketing e trabalhei em alguns dos principais veículos do Brasil, como Casa Vogue, Caras, Valor Econômico, Estadão e Rádio Eldorado FM. Minha missão era traduzir ideias em histórias e construir conexões entre pessoas, marcas e propósito.
Embora eu não tenha exercido a profissão de jornalista, foi a faculdade de Jornalismo que me deixou uma das lições mais valiosas da minha vida: aprender a observar com imparcialidade. Aprendi a ouvir antes de concluir, a considerar diferentes perspectivas antes de formar uma opinião e a não permitir que minhas próprias crenças falassem mais alto do que os fatos. Com o tempo, percebi que esse aprendizado ultrapassou qualquer carreira. Ele transformou a maneira como passei a enxergar as pessoas, a vida e, principalmente, a mim mesma.
Aprendi que toda pessoa carrega uma história invisível. Durante décadas usei essa habilidade para compreender o mundo, até que chegou o momento em que precisei utilizá-la para compreender a mim mesma.
Quem permanece quando tudo o mais desaparece?
Durante muitos anos, confundi identidade com profissão, dizia com orgulho: “Sou da revista…” Quando, na verdade, eu apenas trabalhava nela.
Demorei para compreender que ser é muito diferente de estar. Podemos estar em uma empresa, exercer uma profissão, ocupar um cargo ou desempenhar um papel, mas nada disso define, por si só, quem realmente somos e foi então que uma pergunta começou a transformar minha vida:
Quem sou eu quando retiro as máscaras, os títulos e os personagens?
Desde esse dia, essa pergunta se tornou parte da minha oração diária.
Quem sou eu hoje?
Ela não busca uma resposta definitiva. Funciona como uma bússola. Lembra-me de onde estou, do que realmente importa e da direção que desejo seguir e quando inevitavelmente escorrego nas curvas da vida, essa mesma pergunta ajuda meu GPS interior a recalcular a rota com mais gentileza e consciência.
Talvez o verdadeiro sucesso seja este: viver de forma que, aos oitenta anos, eu possa olhar com ternura para a menina de oito que um dia fui e que ela, por sua vez, olhe para mim com orgulho, reconhecendo que, apesar das escorregadas nas cascas das bananas, nunca desistimos de caminhar em direção à nossa essência.
Talvez seja isso o sentido da vida: não nos tornarmos outra pessoa, mas, a cada recomeço, voltarmos para casa, para quem sempre fomos.
O dia em que voltei a ser criança
Eu acreditava que sabia inglês, até precisar viver em inglês. Jamais esquecerei o primeiro check-in no aeroporto de Los Angeles. Eu entendia algumas palavras, a atendente compreendia apenas parte do que eu dizia e naquele instante, a mulher acostumada a comunicar grandes ideias voltou ao primeiro dia de aula.
Foi um banho de humildade!!
Descobri que comunicação não acontece apenas através das palavras, acontece na presença, na escuta ativa, no olhar, na pausa, na energia, na sabedoria do silêncio. Percebi que conexões verdadeiras nascem quando abandonamos a necessidade de parecer prontos e aceitamos o privilégio de continuar aprendendo.
Pequenas mortes – Grandes renascimentos.
Ao longo destes dez anos conheci inúmeras versões de mim. A mulher cheia de expectativas, a que sentiu medo, desespero e que precisou começar do zero, a que perdeu vínculos e encontrou novos caminhos, a que conheceu o amor da sua vida e construiu uma família, a que se tornou cidadã americana, a que vem aprendendo a exercer sua profissão em outro idioma e, sobretudo, a mulher que descobriu que paciência não é um talento ou uma virtude teórica, mas uma prática diária e que cada fase exigiu uma despedida, cada despedida abriu espaço para um novo nascimento.
O yoga chegou quando eu buscava respostas e me ensinou a escutar a sabedoria do silencio interno
Foi no yoga que encontrei muito mais do que movimento. Encontrei presença. Autoconhecimento. Direção. O corpo tornou-se uma porta de entrada para compreender a mente, as emoções e a alma.
Dessa experiência nasceu o Yoga Self Connection.com, uma plataforma dedicada a promover bem-estar, autoconsciência e transformação por meio do yoga, da meditação, retiros e de experiências imersivas.
Hoje compreendo que nenhuma transformação acontece de repente, ela é construída como uma casa, um tijolo por vez.
O sucesso ganhou outro significado
Durante muitos anos imaginei que sucesso era conquistar espaço, reconhecimento, dinheiro, resultados e agora penso diferente: Sucesso é continuar inteiro enquanto a vida muda. É ter coragem de rever crenças para transformá-las, abandonar personagens e permanecer fiel à própria essência. Sucesso é se conhecer verdadeiramente!
Raízes e asas
Ao longo dessa jornada, compreendi que minhas raízes e minhas asas não pertencem a lugares diferentes, mas fazem parte da mesma história.
O Brasil me deu raízes. Foi onde aprendi meus primeiros valores, construí minha identidade e desenvolvi a base que me trouxe até aqui. Por outro lado, os Estados Unidos me deram asas: desafiaram minhas certezas, ampliaram minha visão de mundo e me convidaram a descobrir novas possibilidades.
Por isso, hoje não preciso escolher entre os dois. Carrego ambos dentro de mim, porque cada lugar deixou uma marca única na pessoa que me tornei.
Além disso, foi justamente convivendo com culturas diferentes que descobri uma das maiores lições da minha vida: o crescimento raramente acontece quando estamos cercados apenas por pessoas que confirmam aquilo que já pensamos.
Pelo contrário, ele nasce quando temos coragem de escutar novas perspectivas, questionar nossas próprias crenças e permitir que diferentes experiências ampliem a nossa forma de enxergar o mundo.
Afinal, são os encontros — especialmente aqueles que nos desafiam — que nos convidam a evoluir.
Este é apenas o começo e o primeiro capítulo de A Arte de Recomeçar — 10 Anos de Transformação.
A Cada semana compartilharei histórias sobre:
- O contraste entre o sonho americano e a vida real.
- Os choques culturais que transformaram minhas crenças.
- O encontro inesperado com o amor.
- As lições sobre dinheiro, saúde, segurança e qualidade de vida.
- O que os funerais americanos me ensinaram sobre celebrar a existência.
- Como a natureza se tornou minha igreja.
- A coragem de ser quem sou.
- A paciência como disciplina diária.
- A fé que sempre esteve presente, mesmo quando eu ainda não a reconhecia.
Se existe uma conclusão para esta década, ela é simples: A maturidade não nasce quando temos todas as respostas, ela surge quando fazemos as pazes com quem fomos, honramos quem somos e mantemos coragem suficiente para continuar nos transformando, porque a vida não recompensa quem permanece igual, ela convida, todos os dias, à arte de recomeçar.
Adriana Jarva
@adrianajarva – @yogaselfconnection
https://yogaselfconnection.com
Praticante e instrutora de Yoga. Graduada pela Inner Peace Yoga School em Utah, EUA onde moro. Durante a pandemia criei o estúdio de YogaOmLine tornando as práticas acessível para todas às pessoas, em qualquer lugar do mundo com o diferencial que é sentir sua própria essência divina.