A Arte de Recomeçar | 10/10 | O amor

Último episódio desta série sobre 10 anos vivendo nos EUA e o verdadeiro motivo por eu estar aqui: o amor!

Hoje, 14 de outubro de 2026 celebramos nove anos de casados. Há datas que marcam o calendário, outras marcam quem nos tornamos e enquanto celebro o aniversário de casamento com o Mark, percebo que esta história de amor começou muito antes de conhecê-lo.

Começou quando eu aprendi a voltar para mim!!!

Durante muito tempo, procurei no outro aquilo que ainda não sabia oferecer a mim mesma e, algumas vezes me perdi insistindo em relacionamentos onde os sinais eram óbvios e não fazia mais sentido continuar, até entender uma coisa simples e profunda:
Amar alguém exige aprender a arte de  se amar primeiro…

Não estou falando de narcisismo, egoísmo ou de colocar-se acima ou abaixo dos outros, porque o amor-próprio é  o oposto disso, e é muito generoso.

É conhecer quem você é. Respeitar seus limites. Cuidar de si. Reconhecer suas fragilidades e necessidades sem transformar o outro em responsável por satisfazê-las e também não permitir que o outro use ou manipule suas fragilidades em benefício próprio porque isso não é amor.

Se amar é conseguir estar consigo mesma em paz, sem sentir que precisa de alguém para preencher as próprias carências.

Talvez por isso o segundo mandamento:  “amar o próximo como a si mesmo”,  tenha sido tantas vezes distorcido. Não diz para amar o próximo mais do que a si mesmo e tampouco sugere que amar a si seja egoísmo. Existe uma medida implícita nessa frase: “como a si mesmo!!!”

Simplesmente porque é muito difícil, se não impossível oferecer ao outro aquilo que não aprendemos a cultivar dentro de nós e por isso vemos tantos relacionamentos desgastados ou fragilizados a nossa volta.

Antes do amor, veio o autoconhecimento

Aprender a me amar também significou olhar para minhas sombras, reconhecendo os padrões que eu repetia, as migalhas que aceitava, os nãos que eu NÃO sabia dizer, e principalmente o que eu precisava transformar dentro de mim.

Autoconhecimento não é descobrir apenas o que gostamos ou não, mas principalmente ter a coragem de reconhecer as partes sombrias escondidas no subterrâneo da alma, as quais preferimos ignorar, é mais fácil. Quando comecei assumir a responsabilidade pela minha vida, parei de colocar no mundo e também nas pessoas a tarefa de me salvar e a transformação começou.

Sim, teve um marco (anos antes de conhecer o Mark), foi quando conversei verdadeiramente comigo. Certo dia, já muito cansada, na verdade exausta dos abusos que eu sofria porque aceitava / permitia, tomei consciência dos ciclos / padrões que insistia e repetia e, me lembro nitidamente de quando acordei certa manhã, olhei para o teto e simplesmente dei um grito e disse algumas verdades doloridas que eu precisava absorver:

“Adriana eu sinto muito pela sua vida estar uma merda, mas você é a responsável por isso. Aceita que dói menos: seja mulher e não menina, tire os óculos de lentes cor de rosa e pare de se iludir. Seja humilde consigo…entenda e aprenda; por que você tem atraído pessoas de perfil duvidoso, abusivo, manipulador e tóxica? Qual a sua responsabilidade nisso?”

Mulher o que você está fazendo da sua vida?

Você vai continuar nutrindo este padrão onde os ciclos se repetem, ou vai ressignificar tudo isso?

CHEEEGAAAA!!!! Gritei e foi o grito de LIBERDADE!

ACORDEI para a VIDA e para a arte de aprender a me amar!

“Onde você está exatamente agora e onde pretende chegar?”

“Quais são os valores INEGOCIÁVEIS para sua vida?”

“Quem é você hoje na fila do pão e quem quer se tornar?”

“O que faz sentido, o que não faz sentido?”

Isso não significa que somos responsáveis por tudo o que nos acontece, claro que existem injustiças, perdas e circunstâncias que não escolhemos, mas existe uma responsabilidade que é muito nossa: como escolhemos viver, o que aceitamos, quais padrões repetimos e o que fazemos com aquilo que a vida coloca diante de nós.

Foi assim que aos 45 anos de idade comecei o primeiro grande relacionamento da vida: comigo mesma. Parei de procurar alguém para me “completar”. Comecei a criar espaço para alguém com quem pudesse compartilhar uma vida que já era minha, para “complementar”… foi quando aconteceu o grande marco: morri com meu EU doente e renasci para o EU saudável. Depois desse processo, conheci; Mark (na tradução significa Marco).

Completar x complementar

Conheci Mark W. Jarva em Utah, enquanto ainda aprendia uma nova língua, uma nova cultura e uma nova versão de mim mesma.

Não houve trilha sonora nem cena de cinema. Houve conversa, algumas vezes com tradução, amigos, crianças, um passeio, um convite, um número de telefone. Depois, distância. Três semanas mais tarde, uma mensagem dele. E alguma coisa começou.

Não porque Mark veio salvar minha vida. Eu já estava vivendo a minha. Estava me conhecendo e reconhecendo o que não queria mais, entendendo o que precisava existir para que uma relação saudável fizesse sentido e tenho certeza absoluta que Deus nos colocou na vida um do outro.

Muito antes de conhecer o Mark, todas as noites, fazia das minhas orações um ritual sagrado: visualizava, escrevia e sentia que era merecedora de viver o amor da vida, mas aprendi a desejar sem me apegar ao resultado. Porque confiar não é ficar esperando: é fazer o que precisa, se cuidando, se melhorando dia a dia, entregando à Deus o que não depende de mim, fluindo e criando espaço para que a vida pudesse me surpreender.

Pedido de casamento?!!

Um ano depois, em 14 de outubro de 2017, nos casamos e foi um casamento lindo e muito abençoado, mas existe um detalhe dessa história que ainda me faz rir.

Meu inglês era limitado e Mark começou a falar sobre a possibilidade de nos casarmos no ano seguinte e eu  entendi que ele estava me pedindo em casamento, mas na verdade ele estava considerando a possibilidade, mas eu já estava escolhendo a data, o vestido e descartando casar no inverno 😂

Anos depois, descobri que aquilo não tinha sido exatamente um pedido  oficial de casamento. Rimos muito e chegamos à mesma conclusão: foi o melhor mal-entendido das nossas vidas.

Desde então, aprendi que a vida raramente segue exatamente o roteiro que muitas vezes imaginamos. A nossa parte é se conhecer profundamente, prestar atenção aos sinais, respirar profundo, caminhar com presença, cuidar da espiritualidade, nutrir a fé, seguir confiante que tudo acontece como é para ser.

Agir sem forçar. Escolher sem controlar. Confiar sem se abandonar. Amar…se amando.

Talvez seja isso que significa fluir, no meu caso, o universo precisou apenas de uma pequena falha de tradução para me mostrar que nem todo desvio é um erro. Às vezes, é simplesmente a vida encontrando outro caminho para nos levar aonde precisamos estar e aquela conversa mal traduzida acabou nos levando a uma das maiores certezas da minha vida.

Quando é para ser, não significa que tudo será perfeito. Significa que, apesar das diferenças, dos imprevistos, dos mal entendidos e até o que seria para atrapalhar, acaba ajudando.

Os detalhes dessa “ópera matrimonial” ficam para o livro que estou escrevendo, Decodificando Sinais. Porque alguns sinais merecem ser decodificados e alguns merecem ser contados com mais detalhes e humor … e esse é um deles.

Eu. Ele. Nós.

Depois de nove anos, esta é uma das maiores lições que o casamento me ensinou: somos três na relação. Eu. Ele. Nós. Eu preciso continuar sendo quem sou,  o Mark precisa continuar sendo ele,  para nós cuidarmos do espaço que estamos construindo juntos, olhando para uma mesma direção, fazendo os ajustes e alinhamentos necessários na rota da vida.

Somos diferentes: em histórias, experiências, personalidade, cultura e, muitas vezes, em opiniões, ainda bem. O amor não exige que duas pessoas sejam iguais ou pensem iguais, o amor exige respeito suficiente para que possam ser diferentes sem querer mudar quem o outro é.

Mark é um homem de atitude. Cuida de forma silenciosa, faz acontecer, participa, é marido presente, pai presente, filho presente e me faz sentir uma rainha não porque me coloca em um pedestal, mas porque me trata com amor, respeito e consideração em pequenas atitudes diárias e eu amo admirá-lo pelo homem que é, e ama-lo não significa deixar de ser quem sou e nem ele não precisa deixar de ser o Mark para existir o nosso casamento.

O “nós” saudável não apaga o “eu” e o “ele”, ao contrário, nasce deles!!

Uma das diferenças entre dependência e amor… enquanto a dependência diz: “preciso de você para existir”, o amor sussurra: “eu existo, você existe e escolhemos construir algo juntos.”

 

O amor acontece no cotidiano

Depois de 10 anos juntos, descobri que o amor não mora nas grandes declarações ou nas grades performances, ao contrario, mora nas coisas simples do dia a dia, nas atitudes, nos detalhes, nas caminhadas, nas conversas, nas séries assistidas juntos, nos choros e risos, nas viagens, nos planos para o futuro de quando ficarmos velhinhos,  no cuidado silencioso, na presença, na pergunta que demonstra preocupação, na capacidade de conversar depois de uma discordância, na disposição de pedir e demonstrar perdão, na escolha do cuidado com o relacionamento…desde um café da manhã preparado com carinho até na oração feita juntos antes de dormir.

Não acredito em casamento perfeito, mas em duas pessoas reais, com histórias reais, com seus erros e acertos, aprendendo continuamente a arte de amar.

14/10/2026

Hoje não celebro uma história perfeita, mas uma história real, com o homem que escolhi e que continua me escolhendo. Celebro a mulher que me tornei e celebro aquilo que estamos construindo juntos.

Depois de tudo o que vivi, uma coisa ficou clara: o amor à dois saudável só é possível quando primeiro aprendemos a arte do amor próprio, se conhecendo por inteiro, na luz e na sombra.

E se existe algo que eu diria para a minha criança de 8 anos, seria: ” Conheça-te. Cuide-si. Aprenda a se amar, a se respeitar, dizer não, se posicionar, observar os sinais e estar consigo nos momentos bons e nos desafiadores, ou seja, case-se com você primeiro antes de casar com o amor que irá somar e complementar.

O maior recomeço não é encontrar alguém, mas é finalmente encontrar a si mesma antes de viver o amor da relação !!

A série termina aqui…e o livro está apenas começando…”Decodificando Sinais”

Um mergulho profundo em si mesma PARA descobrir  a força da Auto conexão.

Com carinho,

Adriana Jarva