A Arte de Recomeçar | 9/10 – E se sentir fé não for sobre acreditar?

Durante muito tempo, achei que precisava encontrar a fé. Em alguns momentos, cheguei a pensar que tinha perdido a minha. Hoje, olhando para trás, percebo que ela nunca foi embora, sempre esteve presente, eu é que ainda não sabia reconhecê-la.

Ela estava nos pequenos e grandes acontecimentos da minha vida: nas minhas orações, nas escolhas, nos recomeços, nas vezes em que eu não sabia para onde estava indo, nas vezes em que perdi o chão e, ainda assim, alguma coisa dentro de mim dizia: Continue…

Por isso, hoje eu não consigo explicar a fé como uma crença. Para mim, a fé é uma experiência, é sentida com a percepção que existe algo maior do que palavras, sem precisar ver para constatar.

E por isso que, quando alguém me pergunta: “Você acredita em Deus?”

Respondo: “Não!!”

Por alguns segundos, a conversa congela, então eu respiro e peço a pessoa o que vou pedir a você que está lendo agora: “Feche seus olhos: inspire, sinta o ar entrando… agora exale….” isso não é uma crença, é uma experiência…Deus é o ar que eu respiro, é pura presença… eu sinto Deus, mesmo quando não consigo explicar.

Acreditar vem de crença e essas podem nos limitar, mas o sentir… ah meu amigo, sentir é outra frequência..

E você acredita ou sente Deus?

Antes de sentir a fé, precisei aprender a sobreviver

Minha infância foi marcada pela ausência. Não porque meus pais não me amassem, mas porque eram pessoas doentes e, por circunstâncias que uma criança não consegue compreender, eu vivi experiências de abandono e sobrevivência muito cedo.

Uma criança não entende diagnósticos, limitações ou as complexidades da vida adulta. Ela apenas sente quando precisa de colo, carinho, cuidado, proteção, mas que não estão disponíveis.

Depois veio uma adolescência conturbada, cheia de conflitos, descobertas, excessos, inseguranças, medos e aquela mistura confusa de querer ser adulta sem ainda saber quase nada sobre mim e sobre a vida. E então veio a vida adulta, e até os 45 anos minha história teve muitos altos e baixos, repetição de padrões e nessa montanha russa foram muitos frios na barriga.

Houve o falecimento dos meus pais, de um irmão que era portador da síndrome de down, separações, pés na bunda, demissões, relacionamentos que terminaram, portas que se fecharam, projetos que não aconteceram. Decepções, frustrações, fracassos, angustia, depressão, tristeza…Recomeços que eu não escolhi, pelo menos de forma consciente. E, muitas vezes, a sensação de que eu finalmente estava conseguindo colocar a vida em ordem… até que alguma coisa acontecia e me obrigava a começar novamente.

Hoje consigo olhar para aquela mulher com mais compaixão, mas na época, eu só queria que a vida desse uma trégua, só não sabia que de alguma maneira, cada queda estava construindo uma mulher que ainda não conhecia, mas que sentiria admiração e orgulho.

A herança que minha mãe deixou

Minha mãe me deixou uma herança que dinheiro nenhum poderia comprar: a fé!!

No final da vida, quando o câncer já havia se espalhado pelo seu corpo, eu assisti a uma mulher atravessar a dor sem abandonar aquilo em que acreditava, ela orava, confiava e conversava com Deus. Não era uma fé de quem não sentia medo ou dor, mas era uma fé que existia apesar deles.

E essa foi uma das maiores lições que recebi sem perceber. Fé não significa ausência de sofrimento, significa que mesmo na dor é possível respirar a esperança de que as coisas mudam e podem melhorar. A fé quando nutrida faz uma alquimia transformadora e silenciosa acontecer: verdadeiros milagres.

Fé também exige coragem para enxergar

Existe uma parte da fé sobre a qual quase não falamos: fé também exige discernimento.

Porque existe uma diferença enorme entre entregar a Deus aquilo que não podemos controlar e usar “Deus quis assim” para justificar aquilo que ainda precisamos transformar. Nem tudo é destino e muitas coisas são consequência das nossas escolhas. Algumas são escolhas de outras pessoas e outras  simplesmente fazem parte da condição humana .

Foi preciso amadurecer minha espiritualidade para compreender que Deus não me deu consciência, inteligência e capacidade de escolha para que eu cruzasse os braços diante da vida.

Fé, para mim, nunca foi passividade, mas sim confiança, sabedoria e forças silenciosas  acompanhada de ação!

Deus não faz a prova por nós

Imagine alguém que tem uma prova importante e não estuda, nem se prepara, nem pede ajuda, depois, tira uma nota ruim e diz: “Foi falta de sorte!!”

Muitas vezes fazemos exatamente isso com a vida. Pedimos uma oportunidade, mas não enviamos o currículo, pedimos saúde, mas ignoramos o corpo pedimos um relacionamento saudável, mas continuamos repetindo os mesmos padrões. Pedimos prosperidade, mas não queremos desenvolver habilidades, trabalhar ou mudar nossas escolhas. Queremos o resultado, mas nem sempre queremos participar do processo.

Orar e agir não são opostos, são duas partes da mesma caminhada!!

Quando minha fé era do tamanho de um grão de mostarda

Houve momentos em que minha fé era pequena, muito pequena, do tamanho de um grão de mostarda. Eu não tinha respostas, não sabia como algumas histórias terminariam. Em alguns momentos, eu sequer conseguia perceber que ainda acreditava em Deus, mas eu levantava e tentava novamente.

Essa é uma das formas mais honestas de fé que conheço, não é estar forte o tempo inteiro, não é ter certezas, não é ignorar os problemas, não é acordar todos os dias cheia de esperança, às vezes é simplesmente levantar da cama e dizer: “vamos lá”, mesmo sem saber onde é essa lá… respire, mais uma vez…mais um passo, depois o próximo passo, o outro…e continue … na arte de caminhar mesmo quando a vida diz não.

Aos 45, eu recomecei em outro país

Aos 45 anos, quando muita gente talvez estivesse buscando estabilidade, eu fiz o contrário, mudei de país. Deixei para trás referências, pessoas, lugares e uma vida que eu conhecia. Cheguei aos Estados Unidos para começar novamente. Nova cultura, novo idioma, novos códigos, tudo novo, relações, medos, inseguranças, tudo novo de novo… aquela sensação conhecida de estar começando do zero.

Só que eu já não era a menina que um dia se sentiu abandonada, nem a adolescente perdida, nem a mulher que havia atravessado tantas perdas, fracassos e despedidas, mas eu carregava tudo aquilo comigo.

Recomeçar não significa apagar a história!

Significa aprender a escrever o próximo capítulo com tudo aquilo que a história anterior ensinou. Foi também nesse novo capítulo, em meio a tantas mudanças, que encontrei algo que durante muitos anos havia pedido em minhas orações:

 O amor…ah o amor!!!

Eu pedi pelo amor, antes de conhecê-lo

Depois de viver relacionamentos que me fizeram questionar meu próprio valor, eu sonhava encontrar o amor. Eu não sabia quem seria, nem onde estaria, nem quando chegaria, mas sentia que era merecedora de viver o amor da minha vida e isso fazia parte das minhas orações e da fé.

Eu pedia a Deus que abençoasse o homem que eu ainda não conhecia e que, quando nossos caminhos se encontrassem, estivéssemos preparados para viver aquele encontro, mas não fiquei esperando alguém bater à minha porta e enquanto orava e nutria a fé, eu vivia, trabalhava, estudava, fazia terapia, me divertia nos processos, conhecia pessoas. Errava. Aprendia. Acertava. Me conhecia melhor e principalmente, comecei a entender o que eu não queria mais. Até que um dia encontrei Mark W Jarva.

Hoje, 10 anos depois posso afirmar: eu sei que Deus colocou Mark no meu caminho e eu no dele!

Também sei que a fé me ajudou e muito, mas não fez o trabalho por mim, precisei escolher, conhecer, arriscar, construir, aprender me amar primeiro, perdoar, encerrar ciclos para começar o novo e tão sonhado amor.

Encontrar alguém é uma coisa, mas construir uma vida juntos é outra!!

Amar é maravilhoso, mas amar alguém que também escolhe amar você todos os dias…não tem preço!!

Recomendo!

Fé não é certeza

Essa é a parte que mais mudou em mim, porque costumava pensar que ter fé significava acreditar e dizer: “vai dar tudo certo”! Não penso mais assim, porque coisas difíceis acontecem também com quem tem fé, pessoas boas sofrem, relacionamentos terminam, planos fracassam, pessoas que amamos partem e tudo isso faz parte do processo chamado: autodesenvolvimento.

A fé não é um contrato que fazemos com Deus para garantir que nada dará errado.

Fé é confiança suficiente para continuar sem saber o resultado, é quando deixamos de exigir garantias da vida, e começamos a participar dela verdadeiramente, independente do que aconteça!!

A fé também precisa de realidade

Existe uma espiritualidade que nos aproxima de Deus e existe um fanatismo que pode nos afastar da realidade, a famosa “fé cega”.

Quando usamos “Deus quis assim” para não assumir responsabilidades ou permanecer em situações que precisam ser transformadas, não estamos exercendo fé, mas evitando olhar para nossas sombras.

Algumas das minhas orações também são perguntas:

Para que atrai esta situação, ou pessoa?

O que eu preciso aprender com isso?

Qual é a minha responsabilidade nessa história?

O que está sob o meu controle?

Preciso pedir ajuda, preciso começar ou recomeçar?

Preciso encerrar este ciclo e deixar ir?

A fé que quero cultivar abre os olhos da alma para a realidade, para a responsabilidade, para as escolhas, para o amor e para aquilo que ainda não compreendo.

Deus nos guiando

Durante muito tempo, procurei Deus nos grandes acontecimentos: em respostas, nos sinais, na porta que se abriu, no pedido que foi atendido, e agora percebo Deus também no cotidiano, inclusive nas coisas que acho que não deram certo, sinto Deus na natureza, no silêncio, na respiração, em uma conversa, em uma oportunidade inesperada, na intuição, no amor, na capacidade de começar novamente, no simples fato de acordar e perceber: hoje eu tenho mais uma chance!!!

Deus nunca precisou gritar para que eu o escutasse, eu é que preciso silenciar para sentir Deus em tudo e em todos!!!

A fé sempre esteve aqui

Percebi que nunca perdi a fé, apenas precisei amadurecer para reconhecê-la. Ela estava na menina que, mesmo se sentindo abandonada, olhava para o céu imaginando que a vida poderia ser diferente, estava na adolescente que se sentia perdida. Na mulher que atravessou separações, perdas, demissões, despedidas e recomeços. Na mulher que chegou aos 45 anos a outro país, precisando aprender uma nova cultura, um novo idioma e tantos outros códigos.  Naquela que teve medo e continuou, que pediu amor da vida antes de conhecê-lo, naquela que caiu, que levantou e nessa aqui que escreve uma parte da sua história e que continua nutrindo a fé,  até seu ultimo suspiro.

A fé sempre esteve aqui dentro de mim, o tempo inteiro!!!

A fé que minha mãe me deixou tornou-se parte do legado que quero deixar ao meu filho: Deus acima de tudo e todos,  e o amor ao próximo como a si mesmo!!!

Existem momentos em que a vida realmente tira o nosso chão e talvez seja justamente nesses momentos que descobrimos algo que ainda não sabíamos sobre nós: que temos asas.

Podemos voar!!!

A fé não promete que nunca vamos cair, mas nos lembra que podemos levantar e talvez seja essa a verdadeira arte de recomeçar: não precisar ter certeza para continuar, apenas fé suficiente para dar o próximo passo, porque Deus não tira nosso chão a toa, ele tira porque confia no poder da auto transformação e nos voos que somos capazes de alçar!

E para o próximo e ultimo episodio da serie, a cervejinha do bolo: Quando encontrei o amor da minha vida!!

Com carinho,

Adriana Jarva