Existe um momento na vida em que a pergunta deixa de ser “quem eu devo ser?” e passa a ser “quem eu realmente sou?”
Talvez esse seja um dos recomeços mais difíceis que enfrentei, porque, para descobrir quem somos, muitas vezes precisamos primeiro reconhecer quantas versões de nós mesmas criamos para caber em expectativas que nem eram nossas: Ser a filha, ou irmã que esperavam, a mulher que deveria agradar, a profissional que precisava provar seu valor, a esposa, mãe, amiga, professora, empreendedora, a mulher que precisava dar conta.
Durante muito tempo, confundi identidade com desempenho, mas venho aprendendo uma coisa diferente: eu não preciso mais provar quem sou. Preciso apenas ter coragem de ser.
A menina de oito anos ainda está aqui
Quando penso em quem eu sou hoje, existe uma menina de oito anos que continua fazendo parte dessa conversa, ela é uma espécie de testemunha silenciosa da minha vida. Olho para ela e me pergunto: “Você teria orgulho da mulher que nos tornamos?”
Não porque eu tenha feito tudo certo, muito pelo contrário, ela viu minhas escolhas, meus medos, erros, insegurança, fracassos, vitórias, as vezes em que tive coragem e aquelas em que não tive.
Viu as mudanças de país, de profissão, de identidade, cultura, idioma e de sonhos, testemunhou a mulher que trabalhou durante décadas em um mundo completamente diferente daquele que hoje habita, viu a profissional da publicidade se tornar professora de yoga e alguém que precisou começar e recomeçar inúmeras vezes e talvez seja justamente por isso que hoje eu tenha menos interesse em parecer bem-sucedida e muito mais interesse em ser coerente na forma como vivo.
Quando o corpo muda, a pergunta também muda
A menopausa trouxe outra camada para essa conversa e não quero nem dramatizá-la como também romantizá-la. Meu corpo mudou e a minha percepção sobre mim mesma também mudou.
E talvez essa seja uma das partes menos discutidas dessa fase: não estamos apenas atravessando uma transformação física. Muitas mulheres também começam a rever papéis, prioridades, expectativas e a própria identidade. Pesquisas sobre menopausa e identidade descrevem justamente esse processo de reavaliação e, em alguns casos, uma oportunidade de redirecionar objetivos e bem-estar.
Para mim, existe algo quase simbólico nisso, durante tantos anos, meu corpo esteve associado à possibilidade de gerar e agora, entro em uma fase em que essa possibilidade já não define minha existência.
E isso me fez perguntar: se eu não preciso mais ser definida pelo que posso gerar, o que quero criar?
Projetos. Experiências. Relacionamentos mais verdadeiros.Autoconhecimento.Conhecimento.Palavras. Memórias. E, principalmente, uma versão mais consciente de mim mesma. Talvez esse seja um dos maiores presentes dessa fase: menos necessidade de aprovação e mais clareza sobre o que realmente importa.
A coragem de decepcionar
Existe uma certa contradição na vida. Quando somos jovens, queremos agradar, ser aceitos e pertencer. Muitas vezes dizemos “sim” ao outro enquanto dizemos “não” a nós mesmas.
Com a maturidade, essa ordem começa a mudar. Passamos a dizer mais “sim” para nós mesmas e, inevitavelmente, alguns “não” para quem está ao nosso redor. E é aí que descobrimos uma parte da autenticidade sobre a qual quase não se fala: ser quem você é pode fazer algumas pessoas se afastarem.
Desde que comecei a assumir, com mais coragem, quem sou, com minha luz e sombras, minhas escolhas, limites e minhas contradições, algumas pessoas se afastaram. Nem sempre foi fácil, mas aprendi a respeitar.
Hoje, não quero mais ser aceita porque sou útil, porque agrado ou porque atendo às expectativas de alguém. Quero ser aceita por quem sou, inteira.
Isso não significa deixar de cuidar dos outros. Significa ser leal a mim mesma. Não me abandonar para que alguém permaneça, não permanecer onde me sinto drenada e ter coragem de dizer não quando algo já não faz sentido para mim.
Autenticidade não é fazer tudo o que quero. É viver de acordo com aquilo que faz sentido para mim, sem deixar de respeitar o outro.
Talvez amadurecer seja isso: entender que ser fiel a si mesma pode desagradar algumas pessoas e aprender a ficar em paz com isso.
Quem quero encontrar aos 80?
Essa talvez seja a pergunta mais importante que tenho feito. Não penso apenas em quantos projetos quero realizar ou quantos lugares quero conhecer, ou quanto dinheiro quero ganhar ou, quantas pessoas quero alcançar.
Penso na mulher que quero encontrar quando chegar aos 80 anos, ou quando Deus decidir que será o momento de encerrar minha passagem por aqui.
Quero olhar para ela e reconhecer alguém que fez o melhor que pôde. Não alguém perfeito, mas uma pessoa inteira. Uma mulher que amou, que aprendeu, que pediu perdão e soube perdoar, que mudou de ideia, que caiu e levantou e teve coragem de começar novamente e principalmente que fez diferença na vida de algumas pessoas servindo amor. E que, por onde passou, deixou o lugar um pouco melhor do que encontrou.
Essa é a minha definição de sucesso hoje.
E se ser quem sou já for suficiente?
Passei boa parte da vida tentando me tornar alguém e agora quero experimentar simplesmente ser alguém. Ser Adriana. Com minhas contradições, minha intensidade, curiosidade, espiritualidade, inquietação e paixão pela natureza, meu amor pelas palavras, minha vontade de aprender, de criar, minha dificuldade de ficar parada, minha capacidade de recomeçar.
Não quero mais editar partes de mim para produzir uma versão mais aceitável. Quero integrar. Porque talvez maturidade não seja finalmente descobrir uma identidade perfeita. Talvez seja conseguir olhar para todas as mulheres que fomos e dizer:
“Eu vejo você. Você fez o que conseguiu com o que sabia naquele momento. E eu agradeço por ter me trazido até aqui.”
A mulher que estou me tornando
Ainda não sei exatamente quem serei aos 80 e gosto disso. Existe liberdade em não precisar conhecer o final. Hoje, sei apenas a direção.
E quero que aquela menina de oito anos continue caminhando comigo, não para controlar quem devo ser, mas para me lembrar de quem eu nunca deveria abandonar. A mim mesma.
Talvez a verdadeira coragem de recomeçar não esteja em construir uma nova versão de nós. Talvez esteja em finalmente ter coragem de retirar todas as versões que criamos para sobreviver às expectativas dos outros. E permanecer, sem personagem, sem performance, sem pedir licença ou desculpas.
Eu sou quem sou. E, pela primeira vez, isso não parece o fim de uma busca.Parece o começo.
A coragem de ser quem sou.
Talvez o maior recomeço da vida não seja descobrir quem podemos nos tornar, mas finalmente ter coragem de ser quem somos.
Praticante e instrutora de Yoga. Graduada pela Inner Peace Yoga School em Utah, EUA onde moro. Durante a pandemia criei o estúdio de YogaOmLine tornando as práticas acessível para todas às pessoas, em qualquer lugar do mundo com o diferencial que é sentir sua própria essência divina.