A Arte de Recomeçar | 4/10 | 10 choques culturais que transformaram minhas crenças

Mudar de país foi mais fácil do que mudar a forma como eu interpretava o mundo

Quando pensamos em mudança de país, normalmente imaginamos os grandes desafios: o idioma, a burocracia, a nova rotina, mas existe uma parte da imigração que quase ninguém fala: os pequenos momentos do dia a dia em que você percebe que está interpretando o mundo através de uma lente completamente diferente.

Porque uma cultura não vive apenas nas palavras. Ela está nos silêncios, nos gestos, na distância entre duas pessoas, na forma de marcar um encontro, na maneira de demonstrar carinho.

São códigos invisíveis que aprendemos desde crianças e que carregamos sem perceber, até encontrarmos uma cultura diferente.

Depois de dez anos vivendo nos Estados Unidos e conhecendo cerca de vinte estados Americanos, descobri algo curioso:

Às vezes parecia que eu não havia apenas atravessado fronteiras estaduais, parecia que estava entrando em diferentes, países, assim como acontece no Brasil, cada região possui sua própria personalidade, ritmo e costumes.

Por isso, tudo o que compartilho aqui nasce da minha experiência pessoal,  não como uma verdade absoluta sobre todos os americanos, mas como os sinais que aprendi a decodificar ao longo dessa jornada.

Esses foram alguns dos choques culturais que transformaram a minha forma de enxergar as pessoas e a mim mesma.

1. O silêncio também comunica

No Brasil, muitas vezes associamos silêncio à distância ou falta de interesse e aqui aprendi uma nova interpretação: O silêncio também pode ser sinal de respeito.

No condomínio que moro, por exemplo, existe uma cultura muito forte de preservar a tranquilidade: música alta, carros fazendo barulho ou festas barulhentas que incomodam os vizinhos não são vistos apenas como diversão, são vistos como falta de respeito, alémm de impactar no bolso porque gera multa, inclusive é cara.

E até os cachorros parecem entender essa regra…brincadeiras à parte, recentemente vivi uma situação curiosa. Minha vizinha de outro condomínio, que fica de frente para o meu quintal, me enviou uma mensagem por SMS (é só o que eles usam) perguntando se eu sabia de onde vinha o latido do cachorro que estava lhe incomodando há três dias seguidos, durante o mesmo período e por algumas horas.

Eu não sabia, mas em conversa com a outra vizinha (lateral), também por SMS, descobri que uma nova vizinha  havia se mudado recentemente e o cachorro latia quando ela saía para trabalhar. Minha vizinha (lateral) tomou a iniciativa de conversar com a nova moradora, a dona do cachorro e, depois daquele dia, o cachorro parou de latir. Ainda não descobri qual foi a solução😂, aliás, quando conheci a nova vizinha (uma querida), nos tornamos amigas, esqueci de perguntar o que ela fez… Isso tudo para dizer que o silêncio é uma lei e não tem barulheira por aqui…uma sensação de paz que eu amo!!!

2. O espaço invisível entre as pessoas

Brasileiros são naturalmente mais próximos fisicamente. Conversamos perto. Tocamos no braço. Abraçamos. Beijamos no rosto e até nas filas existe uma proximidade que, para nós, parece normal. Em São Paulo, por exemplo, os carros muitas vezes ficam quase colados uns nos outros no trânsito.

Aqui percebi outra relação com o espaço, as pessoas costumam preservar uma distância muuuito maior. No começo, achava estranho o tanto de espaço que existia e não me dava conta,  mas hoje eu amo, compreendi que para muitas pessoas, respeitar o espaço do outro é uma forma de consideração, o carinho continua existindo, apenas fala outro idioma cultural.

Lembro de uma situação engraçada de quando namorava meu marido e o abracei na fila do super mercado e ele travou, eu  sem entender, perguntei: “querido o que aconteceu que você está parecendo uma estátua”?  E ele respondeu: “meu amor, podemos nos abraçar em casa”? Eu : “mas por que?” Ele: “olhe a nossa volta e veja se tem mais alguém se abraçando ou beijando”… enfim, da série dos códigos sociais culturais.

Devo confessar também que tenho familiares americanos que não gostam de ser abraçados e sei que se abraçar, vou criar um desconforto, então já aprendi e não abraço, afinal não quero gerar constrangimento, mas foram muitas cenas de saia justa como esta em que eu pensava: “meu Deus o que eu fiz desta vez”? 😂

Daria um livro de comédia, sim porque rir é muito melhor que chorar!

3. “Vamos marcar um café?”

No Brasil, esse convite pode acontecer em poucos minutos, porém aqui, muitas vezes vem acompanhado de uma agenda e a próxima data disponível pode ser daqui a três ou quatro semanas. No começo eu cheguei achar que era brincadeira, depois passou para estranho até entender que isso não significa falta de interesse, muitas pessoas realmente valorizam seus compromissos.

Se está marcado, existe uma grande chance de acontecer e eles recebem muito bem, mas confesso: Ainda gosto e prefiro a nossa espontaneidade brasileira.

Às vezes quando marco algo e, quando chega o dia, penso: “eu não estou na vibe de sair hoje, porque fui me comprometer?” 😂 …mas vou e quase sempre é interessante ou legal, então aprendi a admirar essa organização

4. O almoço que parece uma pausa

Um dos choques culturais que mais me impactou  foi perceber que, para muitas pessoas, o almoço é apenas uma pausa rápida no meio do dia para comer um simples sanduíche, ou ma salada, algo prático.

Enquanto isso, nós brasileiros transformamos o almoço quase em um evento, é sagrado. Arroz, feijão, comida quente. Siesta  ou conversa, e dependendo da região ou profissão, aquele almoço pode durar até 2 horas e particularmente continuo escolhendo meu almoço brasileiro sempre que posso.

Porque algumas comidas carregam mais do que sabor, elas carregam memória.

5. No restaurante: cada um pede o seu

Lembro da primeira vez que saí para comer com um grupo. Eu esperava aquele movimento brasileiro: “Vamos pedir algumas comidas diferentes (para provar de tudo) e dividimos, mas não aconteceu e cada pessoa escolheu seu prato, cada um pagou sua conta (do que consumiu) e  ninguém achou estranho, aliás seria muito estranho dividir comida ou mesmo a conta. Foi quando percebi que até a forma de compartilhar experiências muda de cultura para cultura. Não era falta de generosidade, era apenas outro código social.

6. WhatsApp é literalmente coisa de brasileiros…

Aqui os Americanos usam mensagens de texto (SMS) ou ligações e quando ligam, normalmente vão direto ao ponto, sem muito contexto, sem longas despedidas. Eu já fiquei conversando sozinha porque a pessoa tinha dito “bye” e eu não percebi que a conversa tinha terminado 😂

Também estranhei o fato de não existir aquele clássico brasileiro: “Se cuida.” “Fica com Deus.” “Beijo.“Abraço” e muitas vezes a retomamos a conversa que nunca termina….Aqui, na maioria das vezes é simplesmente:“Bye”, sem beijinho…mas eles também passam horas no telefona, por exemplo, quando ligamos para os meus sogros uma media de uma vez a cada 15 dias, no máximo 1 mês, sabemos que a conversa será uma hora, mas o tchau é fim de conversa e pronto. No começo parece frio e depois você percebe que é apenas outro estilo de comunicação.

Nós brasileiros temos uma característica maravilhosa: Vivemos com intensidade. Rimos alto. Conversamos alto. Celebramos alto. Faz parte da nossa identidade sermos entusiasmados por natureza, até quando estamos tristes a gente tem um jeito único.

Em muitos lugares dos Estados Unidos, percebi uma preocupação maior em preservar a tranquilidade coletiva. Isso aparece no volume da música, na convivência entre vizinhos e na forma de ocupar espaços públicos. Não é melhor, nem pior, é apenas diferente e percebi logo no inicio porque meu tom estava acima (já era acima no Brasil e deve ser porque tive um padrasto surdo), mas aqui em casa, meu marido e enteados sussurram de tão baixinho que falam, enquanto eu preciso orar e me vigiar para não ligar no microfone…😂

7. Gentileza não significa intimidade

No Brasil, muitas relações começam rapidamente. Um convite. Um churrasco. Uma conversa longa. Aqui, algumas conexões são construídas com mais tempo. No início, achei distante, depois entendi que profundidade não depende da velocidade. Algumas amizades crescem devagar, mas quando crescem, podem ser muito significativas. E tem também a parte que não é comum é ter uma pessoa que ajude a preparar as coisas, tudo demanda tempo e tempo custa caro, por hora, então quando recebemos visitas em casa, quem recebe costuma organizar tudo e por isso os descartáveis são tão práticos e bem vindos, usou e joga fora. Ah, sim é comum perguntarmos a dona da casa o que ela quer que levemos de prato de comida para somar e normalmente ela deixa livre para escolhermos ou fazermos algo que surpreenda.

A gentileza está presente no dia a dia e essa parte é muito legal, admirável, principalmente aqui em Utah as pessoas são muito amigáveis, sorriso fácil e não poupam elogios quando gostam de alguma coisa em você, parece bobo, mas essas pequenas gentilezas transformam nossos dias…já me peguei pensando nos “estranhos” que encontrei pelo caminho elogiarem de uma forma especial alguma coisa. Da mesma forma aprendi a fazer o mesmo e sempre que gosto de alguma coisa, faço o mesmo e é muito legal.

8. A idade não define a capacidade

me surpreendi ao perceber que, em muitos lugares dos Estados Unidos, a idade não é o primeiro olhar através do qual uma pessoa é enxergada, aliás perguntar a idade de alguém pode até ser considerado indelicado. A pessoa compartilha se quiser.

Lembro de uma situação que me fez repensar completamente a forma como eu interpretava envelhecimento. Um dia, em uma fila de loja, uma senhora que aparentava ter mais de 80 anos estava atrás de mim usando um cilindro de oxigênio com rodinhas. Automaticamente pensei:

“Como não existe fila preferencial, vou oferecer para ela passar na minha frente.”

Quando ofereci, ela respondeu com firmeza: “Se eu não conseguisse ficar em pé em uma fila, eu não estaria aqui.”

Naquele momento, meu inglês ainda estava em construção e eu não consegui responder, na verdade eu travei e aquela frase ficou na minha cabeça por semanas.

Depois compreendi: ela não precisava que alguém decidisse por ela, estava ali porque escolheu estar, ela não queria ser vista pela sua limitação, mas pela sua capacidade. Aprendi que ajudar exige sensibilidade e nem sempre a nossa intenção, mesmo sendo boa, corresponde ao que o outro precisa.

Hoje, observo melhor antes de agir. Ajudo quando alguém pede ou quando percebo que a ajuda realmente se faz necessária. O mais bonito dessa descoberta foi ver que muitas pessoas com 70, 80 e até 90 anos continuam viajando, praticando atividades físicas, trabalhando e vivendo novas experiências com energia e entusiasmo.

Meus próprios sogros são um exemplo: recentemente fizeram uma viagem de carro por 11 estados. Meu sogro dirigindo e minha sogra como copilota, descobrindo novas paisagens e construindo novas memórias.

Talvez uma das maiores lições seja essa: Envelhecer não significa parar. Significa continuar vivendo de uma nova maneira.

9. A relação com independência

Um dos maiores aprendizados foi perceber como a independência individual é valorizada e muitas pessoas aprendem cedo a resolver suas próprias questões: fazer pequenos reparos, organizar documentos, resolver problemas do dia a dia. Existe uma cultura muito forte do “faça você mesmo”.

No começo, eu pensava: “mas não vamos chamar o pintor, o mecânico, o desentupidor ou qualquer profissional que vá  fazer isso?” Não! Ou, se chamar é porque a pessoa é muito rica financeiramente. Com isso, descobri algumas habilidades que nem imaginava que tivesse:  meu marido e eu pintamos toda a nossa casa, construimos nosso quintal (a foto de capa deste artigo, é parte da construção do nosso quintal que fizemos, tijolo por tijolo (700 no total)… também já trocamos o carpete, colocamos piso na sala, cortamos madeira para meu marido fazer prateleiras…até o meu site ele que fez, eu fui só orientando…

10. O maior choque cultural estava em mim

Durante muito tempo pensei que estava tentando entender os americanos  até perceber que precisava entender meus próprios filtros.

Cada vez que eu pensava: “Que estranho…” Na verdade, muitas vezes eu queria dizer: “Isso é diferente do que eu conheço” e existe uma enorme diferença entre essas duas frases, porque nós não enxergamos o mundo exatamente como ele é nós enxergamos através da cultura que aprendemos a interpretar.

O que realmente mudou em mim

Hoje continuo amando o calor humano brasileiro, sinto falta dos encontros improvisados, das longas conversas e da casa cheia aos finais de semana, mas também aprendi a admirar o silêncio e outras formas de demonstrar respeito, cuidado e consideração.

Nenhuma cultura é perfeita. Nenhuma possui todas as respostas, mas cada uma revela diferentes maneiras de resolver os mesmos desafios humanos.

Talvez essa seja uma das maiores riquezas de viver em outro país: você deixa de conhecer apenas um novo lugar e você começa a conhecer novas versões da humanidade, mas  principalmente, novas versões de si mesmo. Amo a inteligência emocional que os brasileiros possuem em saber ler o ambiente e dançar de acordo com a música, mas também amo um belo planejamento estratégico Americano que saber fazer bem feito garantindo um resultado satisfatório.

No final das contas, o maior choque cultural não aconteceu quando pisei em solo americano, aconteceu quando descobri que mudar de país amplia horizontes e mudar a forma como interpretamos os sinais transforma a nossa vida.

Reflexão

Qual comportamento você já julgou como estranho, quando talvez fosse apenas diferente daquilo que aprendeu?

Talvez amadurecer seja exatamente isso: trocar o julgamento pela curiosidade.

No próximo capítulo 5/10  de A Arte de Recomeçar: O que os funerais americanos me ensinaram a celebrar sobre a existência!

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