A Arte de Recomeçar | 5/10 |O que os funerais americanos me ensinaram sobre celebrar a existência

Talvez a melhor maneira de falar sobre a morte seja começar falando sobre a vida.

Antes de partir para os Estados Unidos, assisti a um filme que me marcou: The Bucket List, com Jack Nicholson e Morgan Freeman. Dois homens que, diante da possibilidade da morte, decidem parar de adiar a vida e começar a realizar aquilo que ainda desejavam viver. Na época, assisti como quem assiste a uma boa história.

Hoje, depois de dez anos vivendo nos Estados Unidos, percebo que talvez aquele filme estivesse me ensinando alguma coisa que eu só compreenderia muitos anos depois: a vida não deveria precisar de uma data de validade para ser celebrada.

E foi aqui, curiosamente, que comecei a pensar mais sobre a morte. Nos últimos anos, participei de alguns momentos de despedida nos Estados Unidos. E saí deles pensando menos sobre a morte e muito mais sobre a maneira como escolhemos viver.

O primeiro foi de uma mulher que eu nunca conheci. Eu não sabia sua história, não conhecia sua voz e nunca havia conversado com ela. Mas, durante a cerimônia, seus filhos leram cartas sobre a mãe. Contaram histórias, lembraram momentos engraçados e falaram sobre quem ela havia sido e sobre a diferença que havia feito em suas vidas. Eu ri com eles. Depois chorei e por alguns instantes, parecia que eu também a conhecia.

Foi uma das homenagens mais bonitas que já presenciei!

Havia fotografias, objetos importantes, pequenas lembranças e histórias espalhadas pelo espaço. Não parecia apenas uma cerimônia para marcar uma morte. Parecia uma apresentação da vida daquela mulher. Depois do velório e do enterro, as pessoas se reuniram para almoçar. Havia comida, histórias, lágrimas e risadas. A morte estava presente, mas a vida também. E aquilo me tocou profundamente.

Talvez até a despedida precise de tempo

Outra coisa que me chamou atenção foi o espaço que a despedida recebe. No Brasil, muitas vezes, a pessoa morre em um dia e o enterro acontece no seguinte. Tudo é rápido, enquanto o coração ainda está tentando compreender o que aconteceu.

Nos Estados Unidos, percebi que muitas famílias organizam esse momento com mais tempo. Cerimônia, memorial, sepultamento ou celebração podem acontecer em datas diferentes, permitindo que familiares e amigos que vivem longe consigam chegar.

Em uma das despedidas que presenciei, a família esperou aproximadamente uma semana. Uma semana entre a notícia da partida e a cerimônia, uma semana para assimilar, para chegar, abraçar,  contar histórias, dizer aquilo que talvez nunca tenha sido dito. E talvez eu tenha entendido ali que até a despedida precisa de espaço para acontecer.

Uma despedida que parecia uma celebração

A segunda experiência foi um memorial. A pessoa havia sido cremada, e suas cinzas estavam em um lindo vaso. Mais uma vez, havia flores, fotografias, objetos e lembranças. Tudo havia sido preparado com cuidado e amor. Havia comida, encontros, lágrimas, sorrisos e novamente tive aquela sensação:

Não estávamos apenas nos despedindo de alguém, estávamos celebrando quem aquela pessoa havia sido.

Foi naquele momento que pensei: É assim que eu gostaria que fosse quando chegar a minha vez.

E talvez seja estranho escrever isso enquanto estou viva, mas, para mim, não é mórbido. É uma declaração de amor à vida.

A morte é um dia que vale a pena viver

Essa reflexão me fez lembrar de um livro que considero precioso: A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver, da médica brasileira Ana Claudia Quintana Arantes. O título, à primeira vista, parece até uma provocação. E é.

Porque a morte é uma das poucas certezas que todos nós temos e, ainda assim, vivemos como se ela fosse uma possibilidade distante que acontece somente com os outros. Sabemos que vamos morrer, mas quase não falamos sobre isso. Existe tabus, medos, desconforto.

Então evitamos o assunto, empurramos para depois e seguimos vivendo como se tivéssemos um contrato de prazo indeterminado com a vida.

Não temos. E talvez falar sobre a morte não seja uma maneira de pensar menos na vida, talvez seja uma maneira de aprender a vivê-la melhor.

Foi por isso que decidi escrever este artigo e também por isso que, família, quero aproveitar este espaço para deixar algumas coisas registradas. Sim, enquanto estou viva.

Porque, se existe uma coisa que aprendi com a vida, é que deixar tudo para depois nem sempre é uma boa estratégia. E, como vocês conhecem a louca que vos escreve, achei melhor deixar organizado. 😂

Então, família, este é o meu pedido

Se um dia vocês estiverem lendo este texto porque eu já não estou aqui, primeiro quero que vocês respirem. Depois, se possível, sorriam. Não quero uma despedida construída em torno da tristeza de eu ter partido.

Quero uma celebração da sorte que tivemos de nos encontrar nesta vida!!!

Quero que vocês contem histórias. As bonitas, as engraçadas, as que deram errado, as que fizeram vocês pensarem: “Meu Deus, essa mulher era impossível!” 😂

Quero música. Flores. Comida. Fotografias. Abraços. Quero que vocês riam. E, se precisarem chorar, chorem também.

Não quero uma cerimônia perfeita, mas quero uma despedida verdadeira!!!

Quero que vocês celebrem a mulher que eu fui, com meus acertos, erros, contradições, sonhos, medos, recomeços e minha insistência quase teimosa em continuar crescendo. Quero que essa celebração também honre a menina que um dia fui.

Aquela menina que nasceu em uma família desestruturada e que, apesar dos traumas e tudo o que viveu, decidiu não permitir que sua história fosse determinada pelo lugar de onde veio. A menina que eu passei a vida tentando transformar em uma mulher da qual ela pudesse se orgulhar.

Talvez essa seja uma das maiores histórias que deixarei para vocês!!!

Meu último capítulo

Eu quero ser cremada e que doem meus órgãos (já está no meu ID).  Quero que metade das minhas cinzas seja entregue ao meu filho e ele faça o que sentir no seu coração.

A outra metade gostaria que fosse levada para as montanhas de Brighton, próximo ao Silver Fork Lodge, um dos meus lugares favoritos neste mundo, o lugar onde me casei com Mark Jarva, o amor da minha vida

Se isso não for possível, meus planos B e C são Sundance e Park City, nessa ordem. E quero flores, muitas flores.

Tulipas, orquídeas, girassóis, magnólias, copos-de-leite e rosas!!!

Quero que o ambiente tenha vida. Porque, de alguma maneira, até depois da minha morte quero continuar dizendo:

“Eu gosto de coisas bonitas!!” 😂

E existe ainda um pedido muito especial

Quero que cada pessoa receba um exemplar do livro que estou escrevendo e até lá terei terminado. O livro que contará a verdadeira história de uma menina que nasceu em uma família completamente desestruturada, atravessou desafios, rompeu padrões, caiu, levantou, amou, errou, acertou, recomeçou inúmeras vezes e encontrou o amor da sua vida.

Quero deixar essa história não apenas para quem estará presente na minha despedida., mas deixá-la também para aqueles que vierem depois de mim, para os membros da minha família que ainda nem nasceram, para que algum dia alguém possa abrir aquelas páginas e descobrir que: uma história difícil não precisa determinar o final de uma vida.

Que sorte que ela existiu

Talvez seja isso que os funerais que presenciei nos Estados Unidos tenham me ensinado. Uma despedida pode ser muito mais do que um adeus e ode ser uma narrativa sobre uma vida. Fotografias. Objetos.Música. Flores.Comida. Histórias.Pessoas. Lágrimas. Risos. Memórias. E, no centro de tudo, uma pergunta:

O que deixamos para as pessoas que amamos depois que partimos?

Eu não quero que, quando chegar a minha vez, vocês digam: “Que pena que ela morreu!!”

Quero que, depois dos risos e lágrimas, vocês consigam olhar uns para os outros e dizer: “Que sorte que ela existiu!!”

E talvez seja justamente essa a maior lição que a morte pode nos ensinar sobre recomeçar: não precisamos esperar pelo último capítulo para começar a escrever uma vida que valha a pena celebrar.

Enquanto esse dia não chega, eu ainda tenho muito para viver, muito para aprender, para amar, muito para escrever,  para experimentar, para recomeçar e talvez essa seja a minha verdadeira bucket list:

não uma lista de coisas que quero fazer antes de morrer, mas uma vida que eu não precise deixar para depois!!

Porque, no final, talvez a pergunta mais importante não seja: “O que você fez antes de morrer?” Mas:

“Enquanto esteve aqui, você realmente viveu?”